17.3.17

Sight of Sea Capítulo XXXIII por Kisu


Capítulo XXXIII - His Scars Call Him Into Darkness

- Mas por quê?! Por que temos que ir embora?
              Kyle me ignorava carregando mais uma manta para forrar a pequena carroça vazada que ele havia remodelado usando a velha carrinhola.
Duas semanas haviam se passado e foi eu me sentir melhor que Kyle decidiu que era hora de partirmos. A neve derretia, mas as árvores ainda estavam brancas assim como boa parte do solo.
           Saí a seu encalço pisando na pouca neve, ansioso por uma resposta boa o bastante para me fazer mudar de ideia. Ele se virou novamente para continuar carregando sacolas com o pouco que nos restava de mantimento e água quando puxei seu casaco e o segurei pelos ombros, obrigando-o a me encarar.

- Nossa vida é boa aqui! Podemos construir uma família em paz, arar o solo e reconstruir uma casa, apenas nós dois sem que ninguém saiba. O que você deseja tanto que não possa conseguir aqui? Deixe-me ajuda-lo a afastar a solidão, Kyle.
         Sua mão desceu em minha face, jogando-me ao chão. Tornei a olha-lo e tudo o que vi foi um olhar vazio e escuro, diferente da pessoa que estava comigo nas últimas semanas, como se tudo o que vivemos realmente não passasse de mera ilusão assim como eu temia.
- Não pense que me compreende! Isso não é nada mais do que sobreviver e é o que tenho feito ao longo dos últimos anos. Viver aqui não passa de um sonho tolo em que teria que fingir ser quem não sou e enterrar tudo o que conquistei até hoje. Não ouse querer me dar uma vida se nem a sua lhe pertence - e ele ainda me olhava por cima com ar gélido antes de me dar as costas.
          Ao menor sinal de que o inverno estava em seus últimos suspiros, Kyle se transformou, como se estivesse no seu limite, sem poder esperar um segundo sequer. Mas para o quê?
O Kyle que estava comigo nas últimas semanas, preenchendo-me por completo, havia sumido atrás de inúmeras barreiras, mas eu queria acreditar que era seu verdadeiro eu que abraçava e por vezes beijava.

                                                            ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

          Caminhamos por vários dias parando apenas para repousar e fazer as refeições. O cabelo ruivo que tanto me atraía vinha sendo ocultado por tecidos que formavam uma espécie de turbante que não era desfeito de forma alguma mesmo se dormíssemos em alguma hospedaria.
         Ele me fazia andar o tempo todo de capa, cobrindo meu rosto com o capuz portanto eu não tinha noção de para onde seguíamos, porém o que mais me atormentava eram as horas que eu passava sozinho trancado em algum quarto de hospedaria, aguardando o retorno de Kyle por horas sem saber se ele retornaria e, se o fizesse, se não seria através de oficiais gritando pelo nome do assassino enquanto batiam insanamente à porta.
           Chegando à beira mar, trocamos o burro por passagens em um barco pequeno cujo o dono, um senhor corcunda e de pele morena cheia de queimaduras de sol, nos levou até as terras da outra extremidade, cortando a distância que o mar percorria no que pareceram horas intermináveis.
Nessas novas terras, seguimos paralelamente ao mar e em questão de dias tivemos de abrir mão de nossos pesados e quentes casacos de pele e por sorte a quantia que recebemos por eles fora o suficiente para alguns dias de hospedagem e refeições num vilarejo que pareceu despertar o interesse de Kyle.
           Não que eu tenha notado alguma diferença em particular no vilarejo para entender o interesse repentino de Kyle. As casas eram singelas e humildes, não haviam muitas plantações, mas haviam muitas criações de animais, em especial, de carneiros. E embora tudo fosse deveras comum, Kyle estava mais feliz, não que seu semblante lhe entregasse, mas ele parecia mais entusiasmado desde que tomamos o pequeno barco há alguns dias e durante todo o caminho ele seguiu contemplando as águas e aspirando o cheiro da maresia.
             Como soube de tamanha bondade por parte de Kyle? Bem, a condição era de que em hipótese alguma eu deveria sair da construção, mas ele me deixou ir à missa! À missa! E ainda me deu dobrões para o dízimo!
         Claro que eu não pretendia fugir, mas aquela pequena benevolência me deixou um tanto quanto perplexo e com suspeitas, embora não o suficientes para me fazer perder a oportunidade de ir à missa de domingo como a quem vai felicíssimo ao baile anual realizado no palácio.
         Naquele dia, andei pelas ruas de terra, passei pelas lojas e cruzei com aldeões como se fosse um recém nascido a descobrir o mundo. Até a sensação de entrar na Igreja era diferente, sentia como se há anos eu não tivesse momentos apenas para mim, como se sempre houvesse alguém ao meu lado independente do lugar.
           A missa não tardaria a terminar e o padre dar a benção final quando ouvi um estrondo do lado de fora, forte o suficiente para tremeluzir os lampiões e castiçais.
Do outro lado das altas portas, provinham gritos que foram aumentando até ficarem cada vez mais catastróficos conforme os estrondos ficavam mais altos e as vigas temiam ceder. Logo o caos se alastrou no interior do recinto permitindo que as pessoas procurassem qualquer rota de fuga, ainda que não fosse o mais próximo. O desespero foi ainda maior no que o teto começou a pegar fogo.
          No que enfim alcancei as portas com muita dificuldade, vi meus olhos tomados pela imagem do vilarejo ardendo em chamas. Pessoas corriam, outras pediam por ajuda, havia choro e ranger de dentes.
         Fui jogado ao chão de terra pelos demais cristãos que buscavam fugir do interior da Igreja enquanto estava em choque.
         Haviam muitos destroços e a fumaça preta preenchia o céu conforme eu andava sem rumo. Vi janelas sendo quebradas, portas arrebentadas e fui atraído por um pedido de socorro que me levou com receio até um beco entre duas lojas após passar por vários cadáveres. Uma mulher que estava sendo estuprada gritava até que algo desceu do céu em um assobio e atingiu uma das lojas espalhando seus destroços que nos pegaram em cheio.
          Fui arremessado longe ao ser atingido pelo impacto e não muito tempo se passou quando um homem se aproximou de mim no que eu mal havia me sentado e ao olha-lo, só tive tempo de me jogar para o lado, escapando por um triz de ser fatiado vivo por sua lâmina.
         Levantei às pressas, me atrapalhando com meus próprios pés e corri, tendo meu perseguidor logo ao meu encalço. Acabei saindo sem querer do vilarejo e adentrei a floresta, meu coração batia frenético, meus pulmões trabalhavam a mil e minhas pernas não me obedeceriam se as mandassem parar, mas e agora? Não havia corrido certamente para minha própria morte em um local escuro, frio e solitário sem qualquer possibilidade de receber ajuda?
       Não sabia para onde ia ou o que faria quando dei de cara com o tronco de uma árvore ao olhar para trás para averiguar a que distância meu perseguidor se encontrava, e fui jogado deitado na relva.
Corri as mãos ao redor do corpo e peguei algo, uma pedra de tamanho razoável, para apenas então me levantar ainda que desorientado buscando apoio no tronco de uma árvore sem ousar sequer apalpar a testa dolorida. Estava encurralado.
       O rapaz grotesco desacelerou o passo, mas continuou a vir em minha direção. Chegou tão perto que podia sentir o cheiro de suor mesclado ao de sangue e de sal, cheiro que não me era incomum.
Meu corpo ainda estava tomado pela adrenalina quando ele golpeou e eu desviei o suficiente para que sua espada fincasse na madeira da árvore, contudo me custou um corte grande no braço esquerdo.    
    Antes que ele tivesse tempo suficiente de remover a espada e reagir, golpeei sua cabeça com a pedra em mãos. Ele caiu no chão e minha reação foi mais forte do que eu, o medo me dominava ou quem sabe fosse alguma besta que tomava controle de meu corpo e que me fazia prosseguir com os golpes sem me dar conta de que ele estava morto até que minhas mãos começaram a sangrar e me deixei cair sentado, horrorizado com a cena e comigo.

             Eu havia matado uma pessoa! Meu estômago revirou.

             O tempo pareceu congelar e pelo menos dois quartos de hora haviam transcorrido até que a dor em meu braço me lembrou do corte que logo tratei de enfaixar com dificuldade usando parte do tecido de minha própria camisa suja e rasgada.
           Uma parte de minha razão berrava para que eu não ficasse um minuto a mais onde me encontrava e  me forcei a conter a ânsia de vomitar e seguir mais uma vez sem rumo para onde a claridade vinha, porém estava desarmado por sequer lembrar de retirar a espada da árvore. Caminhei com as pernas tremendo a maior parte do tempo e pressionando inutilmente o corte para estancar o sangue que já pingava pelas pontas dos dedos até que a floresta foi ficando menos densa e mais clara ao ponto de dar lugar a uma estrada de terra batida.
          Quando estava prestes a adentrar a estrada, uma mão pesada tapou minha boca e me aprisionou com seu braço de ferro.
- A minha ordem era para não sair da Igreja! - Kyle esbravejou.
- Como? Como soube que eu estava aqui? - indaguei tão logo ele liberou meus lábios e vi que ele estava com os cabelos soltos escorrendo pelas costas. - Aliás, temos que fugir, o vilarejo está sob ataque e consumido por chamas, necessitamos ir para o mais longe possível - apelei.
- Cale a boca e venha comigo, cão sarnento - grunhiu e me puxou pelo braço, me fazendo gritar de dor.
         Somente então ele reparou no ferimento e proferindo injúrias e pragas cortou um tecido que trazia amarrado à cintura para enfaixar o corte.
        Ele tinha um cavalo amarrado há uma curta distância, escondido dos olhares alheios por árvores. Montamos e quando esperava que não, reparei que ele mandava o cavalo em direção ao vilarejo.
- Está louco?! Vai nos matar! Pare, pare agora, Kyle! - meu sangue gelou.
- Feche a matraca ou percorra o resto do caminho preso à cela como um saco de batata!
         Ele mal me ameaçou e minha boca já secou pois acabávamos de entrar no vilarejo e rapidamente vi vários homens guturais invadindo as casas já bem próximas de nós e outros vindo em nossa direção.
          Quando tive a impressão de que não havia para onde ir, fechei os olhos, mas não houve qualquer ruído de ataque até que me apercebi que aqueles ladrões não se importavam com a nossa presença. Alguns nos olhavam, mas voltavam a encher os bolsos de moedas, estuprar alguma moça ou quebrar as casas e invadir o pastoreio.
          Continuamos galopando e o cheiro salgado do mar surgiu, ficando mais forte até nos depararmos com a claridade ofuscante das águas marítimas refletindo o sol. As ondas batiam nos cascos dos pequenos barcos que transportavam pessoas e cargas da margem para o navio e vice-versa.
Deixamos o cavalo e subimos em um dos barcos com o condutor e mais dois passageiros, todos  com pele semelhante aos homens que atacavam o vilarejo, mas eram franzinos. À medida que nos aproximamos do navio, reparei em uma bandeira de fundo negro com duas espadas cruzadas atrás de uma caveira. Era um navio pirata!
         Me virei para alertar Kyle, mas seu semblante me paralisou por completo ainda que ele sorrisse,  pois seu olhar era gélido e sem vida.
A vontade de vomitar voltou a tomar conta de mim ou talvez fosse apenas uma tontura, mas tudo parecia girar e piorou no que fui obrigado a subir a bordo com Kyle logo atrás de mim. O deque estava uma verdadeira confusão com piratas carregando pilhagens, embarcando e desembarcando e vários ajustando as velas, cordas, manivelas, dentre outros instrumentos. Por detrás do navio, reparei que havia mais uma embarcação bem próxima e outra posicionada em um ponto cego logo atrás do desfiladeiros ao lado direito da encosta.
        Não sabia para onde ir e não sabia o que estávamos fazendo a bordo sem sermos mortos.
Alguns piratas que passavam apressados esbarravam em mim antes que eu pudesse sair do caminho, contudo, por um minuto sequer ousei sair do lado de Kyle.
- Kyle… são piratas, temos que fugir - murmurei quase que para mim e quando olhei para Kyle, ele terminava de colocar um tapa olho enquanto que antes ele mantinha um dos olhos fechados a todo momento e eu pensara que era devido à claridade.
- Você é um deles! - disse perplexo. - Mentiu para mim esse tempo todo!
          Dei uns dois passos para trás inconscientemente, segurando o braço ferido e sabendo que não teria como nadar mesmo por que eu não sabia como o fazer. Cheguei a tropeçar em um amontoado de cordas, a mente a mil analisando as possibilidades de escapar, pois ninguém me ajudaria ainda que gritasse por socorro.
           Kyle tentou me segurar e bati em sua mão, tinha raiva, ódio, mágoa… Vários sentimentos se mesclavam e por fim acabei não conseguindo conter a tontura e cai ao chão vomitando.
Ele mudou sua expressão para uma de fúria que poucas vezes eu vira, mas não com tamanha intensidade como agora e mal terminei de colocar as tripas para fora, ele me levou pelo braço bom, ainda que eu tropeçasse, apertando com punho de ferro para o interior do navio contra minha vontade e me jogando sem cuidado dentro de uma jaula úmida e fétida.
- Por que, Kyle? - perguntei sem compreender, minha cabeça girava. - Podíamos ser felizes, ter nossa casa, nossa vida, por que teve de abrir mão de tudo? Por que mentiu para mim?
               Ele se agachou e sua mão agarrou minha face com força.
- Não se ache demais, nunca tive intenção de construir nada - disse entredentes. - Vivo pelo dia de minha vingança e farei o que for preciso para consegui-la. Todo aquela encenação não foi nada mais que um meio de matar o tempo e você foi o único a abrir as pernas para mim.
        E soltou minha face brusco, batendo a porta da jaula com um estrondo antes de passar o cadeado.
- Espero que desfrute de seus aposentos e da companhia - disse sarcástico abrindo os braços eufórico enquanto se referia às ratazanas. - Meu caro príncipe William.
          Como num passe de mágica, minha mente se abriu, clareando-se como o céu após a interminável tempestade. Cada pedaço de memória que me faltava retornou ao seu devido lugar enquanto meus dedos agarravam as barras frias de metal com mais e mais força, era por ter essa sensação nostálgica  e por estar coberto de sangue que meu estômago queimava horrores e minha cabeça não parava de girar.
- Mentiroso! Desgraçado de uma figa - gritava sacudindo as barras com as poucas forças que ainda tinha. - Me deixe sair e me encare como homem antes que lhe mande enforcar ou que eu mesmo o faça! - falava irado sem medir as palavras, sem controle prévio do que proferia. - Você sempre soube que eu era um príncipe e ainda assim me deixou fazer todas aquelas indecências! E… até mesmo te chupar - esbravejei quase a segredar pela vergonha.
       O baque do cadeado batendo nas barras, o som de meus gritos e de minha respiração pesada preenchiam o depósito fracamente iluminado pela luz do dia que entrava pelas frestas e como se não fosse nada, a porta se fechou às costas de Kyle e isso me fez chutar as grades com ainda mais ira, usando toda a força e energia que tinha até o ponto de ficar exausto e meus pés doerem dentro da bota.
         Antigamente, sempre que tinha ganas de chorar, não o ousava fazer, não por me achar forte, mas para que não vissem meus sentimentos e agora, após conhecer Kyle, eu havia virado o chorão dos chorões e mesmo agora por algum motivo as lágrimas já saíam de meus olhos e só então reparava que mais do que rancor, meu coração estava repleto de mágoa e tristeza como nunca e talvez fosse por saber que bem no fundo eu havia conhecido o Kyle em toda a sua essência nos últimos meses que passamos a sós embora ele continuasse a negar qualquer sinal de existência desse período de tempo.
Aquele pirata tinha feito de minha vida, de meus sentimentos e de minha cabeça um completo caos tal como ele se sentia por dentro e o que mais poderia querer de mim?! O que mais?!

Um comentário:

  1. E eu aqui pensando que eles iriam começar a viver um romance em plena harmonia e justo quando o William está na missa as coisas tem que dar uma reviravolta!
    Tenho vontade de dar uma cacetada no Kyle

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