20.4.17

Devalli Demons Capítulo 32 por Golden Moon


Capítulo 32

Passaram-se alguns minutos e eu continuei na mesma posição, sem ouvir um ruído qualquer, nem fazer um gesto sequer. Até que duas batidinhas fracas na porta me fizeram despertar.

– Trouxe o chá, Will.

Quase suspirei de alívio quando ouvi a voz da minha mãe, já tinha esquecido o chá.

Abri a porta, sem muita pressa. E ela adentrou com uma bandeja de madeira, própria para servir refeição na cama e, para minha surpresa, Arthur a seguia, pela barra da saia azul.



Sentei-me na cama e minha mãe me acompanhou depositando a bandeja sobre a cama. Junto ao bule e a xícara, pãezinhos recheados com queijo quente sobre o prato, preparados do jeito que eu gostava.

– Come direitinho... Não quero ter ver chorando de novo. – disse, enquanto acariciava o meu rosto.

Peguei a xícara quente e um pão e comecei a comer, devagar. O meu choro nada tinha a ver com a dor de cabeça, que já passava... A dor era ainda mais complexa do que aquilo e penaria a passar.

Percebi que Arthy olhava para os pães com os olhinhos brilhantes, desejosos. A contragosto de Jasmim, entreguei um pão para ele. Meu irmão me olhou com um sorriso gigante no rosto.

– “Agladeço!” – piscou os olhinhos, empinando seu nariz pequeno.

Eu e minha mãe rimos juntos das gracinhas de Arthy, mas logo depois as atenções de Jasmim se centraram em mim. O pequeno continuou ao nosso lado, se deliciando com seu pãozinho.

– Filho... Você está assim só pela dor de cabeça? – a mão dela deslizou pelos lençóis da cama e pousaram sobre a minha coxa.

Parei de comer, pensando em alguma resposta que não a machucasse, porém tudo o que rondava em minha cabeça era agressivo demais para minha Jasmim.

– Não, mãe, mas... – hesitei.

– Conte-me. O que você tiver a dizer, conte. – disse determinada.

– Estou preocupado com você... – murmurei, sem olhar em seus olhos.

– Por quê?

– O pai não te trata bem, mãe. O que eu disse ontem... – Continuei de cabeça baixa.

– Não se preocupe, filho. Eu estou bem. – sua voz saiu seca e eu tinha certeza da sua mentira.

Pensei em falar sobre a minha conversa com Jim pela manhã, mas olhei para Arthy do nosso lado, tão inocente e desisti de tocar no assunto. Talvez se eu abordasse um pouco sobre minha impressão pela manhã... Ela falasse algo.

– Você parecia cansada hoje de manhã... – coloquei a xícara sobre a bandeja, concentrando-me em Jasmim. – e a porta do quarto trancada...

Os olhos de Jasmim se estreitaram por alguns instantes, mas logo ela se recompôs. Sem olhar para mim, ela deslizou as mãos sobre os lençóis tracejando linhas com seus dedos. Agarrei a mão dela e, instantaneamente, Jasmim me encarou.

– Eu não posso aceitar que te ele te obrigue a fazer qualquer coisa. – disse, condenando-me por falar algo de forma tão dura com minha mãe, mas louvando-me por conseguir dizer aquilo.

Ela mordeu o lábio inferior, como se fosse desabar em choro a qualquer momento.

– É só minha obrigação de esposa, filho.. Não fui forçada a nada. – murmurou, e uma expressão triste invadiu o seu rosto.

Balancei minha cabeça, desaprovando suas palavras. De repente, ouvimos um trinco vindo da bandeja.  Arthy, com uma das mãozinhas estendida sobre o prato de pães, congelou os olhos em nossa mãe.

– Pode pegar, meu amor. – disse ela, sem forças para brigar com o pequeno.

O pestinha sorriu e, segurando o pão entre os dentes, partiu para o colo de Jasmim, sendo recebido em seu abraço. Disse "Eu te amo, mamãe" umas três vezes. Ela o respondeu, com mimo. E eu também não resisti a declarar meu amor por Jasmim.

Jim apareceu no final do corredor e eu não soube esconder a minha chateação. Revirei os olhos e peguei novamente a xicara de chá para disfarçar a minha raiva enquanto ele entrava no quarto.

– Eu e Erin vamos ao centro, vai querer alguma coisa? – disse seco como sempre.

– Não, Jim. Obrigada – minha mãe respondeu, sem encará-lo. Ajeitava Arthur em seu colo, depois da sessão de mimos.

– Lilian vai conosco. – andou para a saída do quarto e a víbora surgiu logo depois, a nos dizer adeus sem entrar no quarto.

Atrás dela, Jenny tinha Gil em seu colo, a face cansada. Não queria imaginar o quanto ela deveria estar sofrendo com aquela situação.

Jasmim olhou para mim e pousou a mão sobre o meu rosto. Pisquei para ela, corroendo-me por dentro, ainda devastado por sua tristeza.

Arthy desceu do colo da minha mãe e correu corredor a fora, provavelmente para brincar no quintal. Jasmim, vendo que eu já havia terminado o chá e não estava mais interessado nos pães, pegou a bandeja e saiu do meu quarto.

Assim que ela fechou a porta, eu me joguei sobre a cama, pronto para cair em sono profundo. Minha dor de cabeça já passava e eu só precisava de um pouco de descanso.

Subitamente, uma sombra preta surgiu em meu quarto e eu pulei da cama, assustado. Kuroh surgiu na mesinha de cabeceira, agitando muito suas asas e o bilhete em seu bico. Olhei para ele, ainda sob efeito do susto, pensando que ele foi atingido por algo, mas ele só estava assustado mesmo.

Peguei o bilhete em seu bico e, antes que eu pudesse abrir, batidas na minha porta me fizeram ficar alerta. Kuroh voou para debaixo da cama em tal velocidade que não cheguei a ver a sua silhueta.

Embolei a carta no bolso e parti para a porta. Quando abri, o caseiro apareceu de olhos arregalados, espionando o quarto por cima do meu ombro.

– Entrou algum bicho estranho no quarto do senhorzinho? Parecia um corvo! – disse ele, com seu jeito de falar arrastado. Sempre achei engraçado quando me chamavam de "senhorzinho".

– Não, seu Milan. Acho que o senhor viu passar perto da janela, mas nenhum bicho entrou aqui. –  menti, sem um pingo de nervosismo.

– Certo... Certo...–  ele espiou novamente, um tanto desconfiado. – É mau sinal, viu. Cuidado.

Ele saiu, batendo suas botas no assoalho de madeira. Tenho certeza que não acreditou muito nas minhas palavras. Fechei a porta, pensando em quanto o pessoal de Virginia é supersticioso. Kuroh era um bichinho tão agradável...

O pássaro negro pulou para o colchão e inclinou cabeça, de um jeito tão fofo, que não resisti a acariciá-lo. Na ponta dos dedos, deslizei sobre suas asas, enquanto pegava o bilhete com a outra mão. Abri a carta, ansioso.

"Queria muito te ver hoje... Podes vir até o lago? Não se preocupe, inspecionei a floresta e não há sinal de perigo.

Há algo que eu preciso te informar... E não pode ser por recado.

Já estou à sua espera.

Seu amante,"

D.D

Quando terminei a carta, percebi que sorria sozinho. Levantei, peguei papel e a caneta tinteiro, para escrever minha resposta.

Ajoelhado sobre a mesa de cabeceira, redigi:

"Se eu não aparecer em uma hora, é porque minha fuga deu errado.

Também tenho coisas para te contar.

Seu amante,

W.S"

Entreguei a carta a Kuroh e ele saiu em disparada pela janela, com medo de Milan. Fiquei preocupado se acontecesse algo ao bichinho, mas confiava em sua esperteza.

Preparei uma fuga como de sempre. Arrumei as almofadas abaixo de lençol, tranquei a porta e parti para a janela, pulando para o assoalho de madeira da varanda. Pelo menos eu teria a desculpa de que estava com dor de cabeça, dormindo no quarto. Realmente não havia passado ainda, mas eu necessitava falar com o Dylan, então seguiria para o lago.

5 comentários:

  1. Eu fico com pena da jasmim mas o que mais odeio é esse tipo de pensamento " ser obrigação de esposa" tudo o que é machismo eu realmente detesto
    agora tou ansiosa é pelo encontro desses dois pombinhis *-*

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    Respostas
    1. Sim! Eu tb odeio:'( Mas pra vc ver o quanto a situação dela é seria... Não percebe o quão doloroso é se submeter a isso :-\
      Esses encontro será bem especial :) Uma luz nesse momento ruim do Will!

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  2. Esse capítulo foi tão cheio de ternura e cumplicidade... Também um pouco de tristeza, mas foi bem envolvente.
    O próximo capítulo com certeza será instigante. (*Mel esfrega uma mão na outra ansiosa* ^^")

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    Respostas
    1. Eu fiquei bem sentimental depois de escrever este capítulo... Às vezes me sinto na pele do Will :-\
      Logo, logo vou te mandar! Me diz o que achou hahah

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    2. Eu passo por isso também, me envolvo demais... Mas, isso é bom!
      Vou ficar a espera :)

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