18.4.17

O Segundo Anjo - Crônicas de Antuerpéria Parte 3 Chapter 17 por Mel Kiryu


Parte 3

                   Pequeno prólogo para introduzir o passado

          Príncipe de Miríades.
          Castiel, o mago nunca desperto.
          Jang Hae, o Contrário.
          O Matador de Lobos.
          Uma ninfa certa vez o chamou Youkai, a personificação de um mistério alado.



          Tantos nomes para um único ser.
          Ser tantas pessoas em tão pouco tempo não era tarefa fácil.
          Considerando que em suas reflexões mais sombrias, em alguns momentos não se sentia encaixar em qualquer uma das descrições.
       Meros pedaços longe de se encaixarem, ilustrarem um sentido real.
       Um amontoado de nomeações que pouco lhe diziam.
       Por isso, escolheu ser apenas Jang Hae.
       O mais próximo do que gostaria de ser.
       O personagem que preferiu encarnar.
         
         Tudo teve início com as idas e vindas da Maga Mistral, entre Miríades e a Aldeia de Hanja.
       Os mais velhos e sábios em Miríades sabiam que Mistral tinha uma índole livre, não se podia prender seu espírito num único lugar.
   Desse modo ela se dedicava como aprendiz em Miríades, mas dava suas fugidas sempre que lhe convinha.
     E numa dessas escapadas, Mistral conheceu o Contrário Julien.
   Na verdade, apesar de Julien ser forte e robusto era evidente que não se sentia a vontade ao circular na aldeia de Hanja, na ocasião ele estava apenas acompanhando um amigo Contrário que estava à procura de um feitiço de amor.
     Mistral nunca tinha visto alguém que tivesse cabelos tão vermelhos, tal como cereja madura. Já tinha ouvido falar desse povo desprovido de magia, que uma boa parte deles tinha como característica a pele alva e os cabelos feito fogaréu.
    Julien era mais do que poderia imaginar.
    Ele não tinha o menor resquício de magia em seu corpo, mas carregava uma fortaleza em si que jamais Mistral vira algum mago carregar. Podia não estar a vontade enquanto circulava pela aldeia de magos, mas também era um dos poucos que não escondia o rosto e os cabelos com um capuz.
     Gostou dele de forma instantânea, porque era o primeiro homem que conhecera que não tinha nada a esconder. Que olhava duro e sinceramente em sua direção e que ao mesmo tempo, desviava o olhar por simples timidez.
      A insignificante relevância do tempo em Finis Tempore, decretou em Mistral a urgência em fazer aquele homem seu.

                                                              ********  
                                         Chapter 17   O mesmo amor, só que irreversivelmente maior

             Tempo presente – O agora em Antuerpéria

        Não havia nada de glamouroso no Castelo de Holden.
      Seu passado estava escrito na torre de observação semi-destruída, nas manchas de sangue ressequidas no piso, no paiol de pólvora esquecido e nos aposentos espartanos antes ocupados por centauros que lutaram dentro daquela fortaleza na Cidadela na vã tentativa de fazerem valer seus direitos.
      A noite continuava a caminhar, Shou olhava através daquela janela projetada num arco gótico uma enorme nuvem púrpura no céu e apenas uma das luas de Finis Tempore vagava visível.
    Sentiu Etzel parar por perto, não olhando para o céu e sim se colocando de costas para a paisagem, seus cotovelos no parapeito de pedra.
    Seu olho direito ainda que de soslaio fixo no anjo.
__Onde Jang se enfiou?
    A pergunta soou indiferente, mas Etzel estava era torcendo que Jang estivesse tão longe quanto possível, o que não era muito em todo caso.
__Deve estar caminhando em torno das muralhas do castelo... Mesmo quando estávamos na colina, ele tinha o hábito de verificar se o perímetro estava seguro.
__Esse ruivo...__ Etzel riu.__ Nunca conheci alguém tão desconfiado e com tanto excesso de precaução e mesmo assim, não poderia ser mais descuidado quando o assunto é ele mesmo.
    Tinha qualquer mensagem subscrita no comentário trocista de Etzel, o tom era algo insidioso e nem Shou podia deixar passar a malícia.
__Você quer me contar algo, Etzel?__ Shou inqueriu desviando o olhar do céu, certeiro no perfil dele.__ Parece louco de vontade de contar um segredo que nem é seu.
__Ah, Shou... Quando digo que Jang tem um segredo... Você não fica "nem um pouquinho" curioso para saber o que é?
__Mesmo se fosse o caso, eu diria que não.__ Shou redarguiu, virando-se de lado naquele parapeito de pedra, apoiando ali o cotovelo e por conseguinte a beira de sua face na palma suave da mão.__ Se Jang achar que sou digno de saber, ele mesmo irá contar.
__Confesse que você adora o ar de mistério dele.__ Etzel resmungou inclinando a cabeça desdenhosa para trás, sentindo a brisa soprar nos cabelos de ametista.__Se acabasse desbravando tudo a cerca de Jang... A pessoa dele não causaria o mesmo fascínio.
    Shou estava fitando Etzel e de súbito, soltou uma risada baixa que o mago nem de longe entendeu.
__Que foi agora, hein anjinho?__ Etzel sorriu irônico com seu olho direito.
__Já reparou? É você agora que fica tocando no nome de Jang... Acho que quem anda fascinado é você, senhor Etzel.
__Não mesmo.__ Etzel rosnou entre dentes.
    E virou para o outro lado o rosto, irritado com o comentário, também mais cansado do que costumava a sentir o aroma de hibisco que a brisa tornava mais evidente ao tocar também nos cabelos azulados de Shou.
__O único que há de me fascinar por toda vida... De certo é você, Shou... Pra todo sempre, mesmo que meu corpo deixe de existir.
     Palavras invocadas, quase bravas e que tinham todo seu encanto.
__Não diga isso...__ Shou pediu num cochicho medroso.
     "Ah! Mas, eu tinha mesmo esquecido desse tom de voz bobo e adorável..."__ Etzel riu para o teto  a pensar e mirou-se no anjo milagrosamente ao seu lado.
__Não dizer que me fascina?__ Etzel também apoiou o cotovelo na janela, sorriso arteiro de mago.
__Não diga que você pode deixar de existir... Não consigo imaginar um mundo sem você.
    "Ainda tem um menino desprotegido dentro desse corpo esbelto de rapaz."__ Etzel meditou a fitar Shou com a profundidade de um silêncio que se esconde e quase não se percebe, salvo somente um exímio observador.
     Teve a forte sensação que estavam em Hanja, que Shou nunca tivesse fugido de sua casa, que o mesmo anjo provido da meiga inocência de outrora estava diante de seu ser.
    Mas, não era bem assim.
    E contudo, sentia que o adorava ainda mais que antes.
    Foi na quietude de suas vozes que Etzel tocou-lhe os lábios com o indicador numa carícia leve.
    Por sua vez, Shou também fez uso de seus dedos compridos e mornos para sentir-lhe a tez... O que sentia era mais do que simples saudade ainda que seu objeto de afeição agora fosse tangível.
    Era o desejo que lhe sobrevinha.
    A vontade intratável de ter junto ao tato o calor da pele, ter por conseguinte a pele de um mesclado ao de outrem.
     Quando tinham experimentado o atrito apaixonado de seus corpos uma única vez.
     Sendo de Shou que partiu o impulso, a necessidade lânguida e doce de deslizar sua mão entre as madeixas displicentes de Etzel enquanto seus lábios exploravam com volúpia injetada a pele de seu pescoço, desmanchando-se em beijos...
      A lua solitária se escondia envergonhada entre a enorme nuvem que se recolhia em si, em pregas diáfanas banhadas pelo anoitecer.
 
                                                                 *********
              A visão noturna que tinha das muralhas do castelo era impressionante.
      Tinha a sensação que podia ver toda Cidadela da onde estava, sonolenta e calma. Quase imóvel.
                   Quase.
   As luzes do farol na colina estavam apagadas, num ponto ou outro ao longo dos vários caminhos que se encontravam ou se perdiam, via-se pequenos pontos luminosos na escuridão. Fogueiras improvisadas por viajantes de passagem que dormiriam em acampamentos que seriam desfeitos com o amanhecer.
     Ouvia o vento.
     Gostava do som do vento.
     Não apenas da sensação do frescor, mas todas as pistas que o vento lhe trazia. Os cheiros, os sons que se propagavam através dele. A direção de onde vinha e para onde soprava, a expressão sutil da natureza que prevenia Jang com seus sinais.
      Mas, ultimamente Jang sentia que andava baixando a guarda com facilidade.
      Isso não podia ser bom e sabia o nome da razão... Quatro letras aladas de longos cabelos azuis.
      Não conseguia dormir como antes, atento e semi-desperto, dormindo com um olho e vigiando com o outro.
      Antes, quando dormia sentado e rijo, era a espada dentro da bainha que ele abraçava contra seu corpo.
      Desde que Shou tomara o lugar de sua espada, desde que ele se aconchegara em seus braços conheceu o sono profundo e calmo como a noite serena que despontava naquele instante.
      E por pensar tanto em Shou, esquecia de ouvir as mensagens sutis do vento.
     Será que nesta noite em questão, poderia tê-lo em seus braços mais uma vez?
      Nunca alguém se enraizara tão profundamente em seu ser, não de um modo tão espontâneo, nem mesmo Saejin.
      Saejin... Sa...e...jin.
      A mente de Jang pronunciou lentamente o nome do outro anjo.
      Sussurrante e roucamente.
      Um arrepio estranho correu pelo entremeio de suas costas.
      Retirou o olhar da paisagem percebendo que não estava só...


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