19.4.17

Sight of Sea Capítulo XXXV por Kisu


Capítulo XXXV - Catch Me! If You Can…

             A manhã do dia seguinte veio envolta em uma fraca e obscura claridade que parecia de fim de tarde. Meu corpo estava dolorido, mas me sentia leve como se houvesse tirado um enorme peso dos ombros.
          Ainda de olhos fechados, passei a mão nas cobertas e não senti Kyle nem de um lado, nem de outro. Isso me fez levantar em um pulo por sequer tê-lo ouvido levantar. Havia tanto que queria conversar com ele, inclusive sobre a conversa que eu não deveria ter escutado.
         Me vesti o mais depressa que consegui ainda que meu corpo doesse por termos transado até a exaustão durante a madrugada.
Sei que não devia, contudo, prossegui para o convés, certamente ele estaria lá e conseguiria vê-lo ainda que me prendessem novamente.

           Ao chegar no convés, vi uma movimentação incomum de caixas e barris sendo descarregados até notar que estávamos em terra firme, ou melhor, em Nab’ha! Mas como? Não estávamos em alto mar até há pouco? Se bem que não tinha noção de nossa localização e de para onde iríamos, então não era de todo estranho que eu não soubesse…
         Mesmo com toda aquela bagunça, meus olhos encontraram facilmente aqueles cabelos ruivos presos em trança enquanto Kyle conversava com alguém no porto. Corri a seu encontro e reparei que quem estava a seu lado era John, o curandeiro do Booty Dark Fleet, e eles falavam sobre a própria carga e suprimentos.
           “Para onde iremos agora?” pensei me aproximando deles enquanto desviava de piratas carregando caixas e eles pararam de conversar.
- Está atrapalhando - Kyle rosnou. - Vá caçar umas pulgas pela cidade.
E eles já saíram prancha acima dando ordens e instruções.
          “Ele não precisava agir assim como se ontem nunca tivesse acontecido…” pensei caminhando até uma área mais afastada e tranquila e me sentei no cais de modo que conseguia observar o Kyle.
Talvez bem no fundo eu achei que ele fosse agir diferente após saber como eu me sentia… Ou seria por estarmos próximos dos outros? Até por que eu ainda era prisioneiro dele.
          Desviei o olhar para a água diante de mim. Queria passar o resto de minha vida junto do Kyle, mas como faria isso na prática? Havia meu irmão me procurando pronto para enforcar o Kyle, piratas querendo recompensa e minha morte… Só continuava vivo por ter o Kyle me protegendo desde o início ainda que por vezes eu chegasse perto de bater as botas, mas sei que ainda que conseguisse entrar em contato com meu irmão, ele jamais permitiria tamanha desonra à família real. Ele preferiria varrer tudo para debaixo dos panos para me livrar da fogueira por amar outro homem.
           Segurei meu braço. Mesmo por cima do tecido da camisa, conseguia sentir a pele mais alta no lugar do corte. “Como faço para não deixar esse amor cair em desgraça?” pensei.
        Me levantei e reparei que Kyle me olhava. Quis sorrir, mas ele se virou no mesmo instante.
Acabei por ir dar uma volta pela cidade. Tudo estava como antes até pelo tempo encoberto em nuvens. Não estava andando com destino certo e ainda me dei de encontro com a ferraria do pai de Aaron, mas estava fechada. Talvez estivessem fazendo entregas ou forjando alguma arma.
Havia andado tanto mesmo com o corpo doendo, mas as horas custavam a passar e terminei por retornar ao porto. Localizei o Kyle antes que pisasse no cais e tive uma ideia que não seria de todo agradável ao final.
- Kyle - chamei me aproximando.
- Já não disse para ir caçar o que fazer? - grunhiu, o olhar afiado.
- É importante, se não fosse, não te chamaria - redargui. - Vem comigo - disse tratando de puxa-lo pela mão para fora do porto e ele estranhamente me seguiu quieto.
- O que tem aqui além do seu cérebro de mexilhão? - arguiu irritado se voltando para mim ao perceber que o havia arrastado até um beco aparentemente vazio.
Antes que ele pudesse falar mais uma palavra, o puxei pelo colarinho do sobretudo e encaixei minha boca à sua. As costas dele bateram com força na parede, provocando um baque alto pelo impulso.
Me surpreendi no que ele não me rejeitou e suas mãos me puxaram pela cintura. O beijo foi curto, mas cálido e suave e, contudo, sem o vigor de sempre.
- Me trouxe aqui somente por isso? - inquiriu, seu olhar era sereno e ainda assim cruel.
- Você me deixou para trás hoje de manhã como se nada houvesse acontecido. Falei sério ao dizer que te amo, por isso quero que seja livre, que tenha a própria liberdade comigo e deixe o Cameron descansar em paz.
- Devia me odiar por tudo o que te fiz, não esperava nada mais que seu ódio.
- E eu te odeio! Odeio por me deixar confuso, por me fazer me apaixonar por você de novo mesmo quando eu estava sem memória, por querer que você puxe meus cabelos, que me morda, que me viole. Você me transformou em um masoquista e, como se não bastasse, me fez desejar abandonar tudo e todos.
Ele me puxou, me abraçando por sobre os ombros como nunca havia feito. Seu coração batia apressado.
- Por isso avisei que devia calar a boca ao invés de falar asneiras como me amar. Se todos morrem por minhas mãos no final, por que?
E levei um soco forte na boca do estômago que me jogou ao chão enquanto me contorcia em dor e cuspia saliva.
- Se nunca houvesse dito aquelas palavras, poderia matá-lo sem pesar, porém, agora… Terá de achar seu caminho para casa se não deseja que eu seja sua ruína - e o disse com tristeza no olhar.
- Kyle, o que está dizendo? Não está inferindo que está me libertando? - proferi com dificuldade e assustado, não queria acreditar, mas ele se manteve em silêncio. - Não! Por favor, me deixe continuar a seu lado, não me deixe. Como vou viver sem você? O que o Cameron tem que eu não?! - as lágrimas já tencionavam rolar por meu rosto.
- O Cameron não tem nada, eu tirei tudo dele do mesmo modo como estou tirando tudo de você - disse se agachando e puxando meus cabelos antes de sussurrar: - Se me ama tanto quanto diz, vá à loucura, se perca e se ache, fique forte e caminhe nas trevas onde estarei te esperando para dizer o que deseja ouvir e, acaso me encontre, PEGUE-ME… SE PUDER!…
Me forcei a agarra-lo ainda que minha barriga doesse. Ele me deixaria dessa vez e seria para sempre, me abandonaria como se nunca houvesse existido algo entre nós e sequer olharia para trás. Entretanto, por mais que apertasse meus dedos em sua roupa, senti algo me atingir a nuca e minhas vistas foram sendo tomadas pela escuridão por mais que tentasse manter os olhos abertos, por mais que cerrasse os dedos nos trajes de Kyle e assim, sua face sumiu de minha visão em um mero borrão.

                                                               ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

- Jamais imaginei que em todos esses anos terminaríamos assim, novamente fugindo com o rabo entre as pernas de guardas - John suspirou tragando do charuto que lhe ofereci antes de soltar a fumaça pelo canto da boca. - Pelas barbas de Odin, não está tirando onda comigo ao dizer que foi amaldiçoado por uma bruxa, que ela lhe retirou toda a sua “maldade” e que agora não consegue causar mal a uma mosca?
- Macacos me mordam! Claro que não! Acha mesmo que a cidade não estaria um mar de sangue a essa altura se dependesse de mim? - grunhi metendo a bota em cima da mesa e cruzando os braços.
As lâmpadas balançavam com o movimento das ondas que se enfureciam em virtude do prelúdio de tempestade quando John se levantou e me acertou em cheio com um gancho de direita e eu caí no chão junto com a poltrona.
- Perdeu a mente?
- O único que perdeu a cabeça foi você, capitão! Condenou a todos nós à morte por ter ficado brincando com aquele príncipe que devia estar morto desde o início! Ou no mínimo agora estaríamos comemorando em alguma praia com dinheiro nos bolsos, bebidas e mulheres! - esbravejou e dessa vez me contentei a ouvir seu sermão dali, do chão… - Nos disse que iria consertar tudo desde o que aconteceu com o Eliot quando descobriu que a Lacrimosa Solar tinha poderes, mas só estamos navegando em círculos e afundando cada vez mais!
Me levantei e ele começou a massagear as têmporas para acalmar os ânimos. Meu queixo doía pelo soco.
- E cá estamos, sem dinheiro, sem príncipe e sem ornamento por conta do maldito acordo que fez com uma maldita bruxa! Sinto que estou cada vez mais careca e pobre.
- Acha que não teria trazido o cão sarnento se pudesse?
- Se pudesse ou se quisesse?! - berrou batendo no tampo da mesa.
“Se todos que amo sempre morrem por minha culpa, como o protegeria do jeito que estou? E porque ele foi amar alguém como eu? Disse a mim mesmo que o Eliot seria o último, então como a situação chegou a esse ponto? Se ele não tivesse dito nada, certamente preferiria perder minha última chance de encontrar o Cameron ao matar o cão sarnento se isso significasse que eu sobreviveria e teria minha vingança perante os olhos de toda a realeza”, pensei me sentando no batente da janela.
- Esse seu amor distorcido por outros homens nunca acaba bem, sempre termina em desgraça! Olhe para você: o pirata mais temido dos sete mares tendo de fugir! Ouça o que digo: FUGIR! Achei que ao menos uma vez na vida faria o certo para o nosso próprio bem, mas você sempre repete os mesmos erros, capitão… - John disse com amargura, sabendo que eu não mudaria de opinião e que não havia conserto. - Às vezes me pego questionando se deveria tê-lo salvo naquela tempestade de chamas.
Não o respondi, afinal, ele estava certo. Ele sempre estava certo ou pelo menos queria que alguém que não eu estivesse, por isso o mantinha ao meu lado, mas a questão era que eu sempre tendia a ignorar seus avisos.
Por agora, era para melhor ter deixado o cão sarnento para trás. Ainda que outros piratas o conhecessem e procurassem, ele conseguiria retornaria ao palácio por bem ou por mal, afinal, era o único lugar para onde ele poderia ir. E, ao readquirir sua vida luxuosa, seu suposto amor por mim logo se desfaria e eu ainda teria o poder da Lacrimosa Solar de seu corpo no lugar mais seguro possível: bem debaixo do nariz da realeza onde ninguém de Scafer, Desaree ou mesmo a bruxa ousariam procurar.
O que eu sentia não era amor, era apenas uma confusão momentânea em virtude de meu desejo de reencontrar o Cameron. Eu não podia amar novamente, não enquanto a vingança me consumisse com suas unhas e dentes.
Me livraria da minha maldição que por algum motivo me permitia bater somente no cão sarnento, e, quando eu descobrisse a localização do tesouro perdido de Ária, voltaria para buscar o que me pertencia por direito debaixo de uma chuva de sangue que marcaria a História.
Não havia algo como felicidade para alguém que se arrastava pela escuridão como eu, não houve e nunca haveria.

                                                           ≈ ≈ ≈ ≈ ≈
       
           Estava frio e molhado. Algo caía em mim aos montes, deixando meu corpo dormente onde ricocheteava. Abri os olhos ao ser tocado na face e vi alguém me encarando.
- Kyle? - me sentei em um pulo, logo sentindo uma dor lancinante no abdômen, mas não era ele… - Essa não, eu tenho que ir atrás dele - proferi com um mau pressentimento ao lembrar de tudo.
- É tarde demais, William - Aaron disse. - O navio zarpou há mais de horas e junto com ele se foi Kyle Cole.
Meu coração parou. Eu tinha que ir até ele.
- Ele está me esperando. Ele disse que está a minha espera, portanto tenho que o alcançar o quanto antes - gritei para Aaron segurando seu colete sujo de fuligem.
- O único lugar que te espera é Viers - disse levantando um pequeno saco. - Aquele desprezível do Kyle Cole partiu antes que a situação ficasse mais caótica e me pagou para te transportar em segurança.
- Está mentindo. O Kyle jamais pediria isso. Ao menos, não a você - disse desconfiado e alerta. - E por caótica, a que se refere? Os guardas de meu irmão me procurando? Não pensam em depor o Kyle, certo?
- Pelo visto não continua tão tolo quanto antes - rebateu atirando o saco em minha direção. - Se você já sabe, fica mais fácil de explicar que estão cada vez mais próximos de descobrir Nab’ha a sua procura e mais dos nossos navios estão tendo seus saques comprometidos no que o rei está caçando, especialmente, a cabeça do Kyle, por isso ele partiu, embora seja estranho ver ele fugindo - e prosseguiu se referindo ao saco de moedas. - A propósito, estava curioso sobre o que tinha no interior ao ver perto de você. Tem uma bela quantia para quem foi abandonado - e falava me analisando, tentando compreender e captar qualquer sinal. - Caso mude de ideia e queira voltar para Viers, sabe onde me encontrar.
Segurei a barra de sua calça antes que ele pudesse se distanciar.
- Vai me ajudar a achar o Kyle!
- O quê? Por que faria essa idiotice? Ir em direção a ele é o mesmo que pedir para morrer na forca sendo assistido pelo rei em seu camarote enquanto a plateia urra.
- Por que prometo que vai poder chutar, socar, esmurrar, o que quiser fazer com o Kyle quando o encontrarmos. Até lá também ganhará sua parte dos saques, contudo, terá que me ajudar.
Aaron começou a rir sem parar, lágrimas rolavam por seu rosto enquanto ele tentava conter o riso.
- Quer que eu arrisque minha vida por isso? Quero pelo menos três socos sem que ele me arranque o queixo em porrada - exigiu já sério. - E como pretende encontrar o pirata mais procurado se ele não irá mais retornar a Nab’ha?
“A chuva fria, a dor no meu peito que não passa, ambas serão testemunhas da promessa que faço a mim mesmo que dessa vez farei tudo certo, tudo que estiver ao meu alcance. Não ficarei parado chorando e esperando que alguém me resgate. Caminharei com minhas próprias pernas nem que eu tenha que refazer quem eu sou para ter o Kyle de volta”, pensei.
- Ele virá até mim antes que eu acabe com a reputação dele, porque eu serei o pirata mais procurado pelos sete mares - me impus. - Eu serei o Kyle Cole!

Not The End?…



Nota da Autora: Obrigada a todos que acompanharam Sight Of Sea por todos esses anos! Infelizmente demorou mais do que eu esperava por vários bloqueios que tive, mas a história não se encerra por aqui para quem já está me amaldiçoando. O final ficou confuso e muitos trechos não foram devidamente explorados por ter enfoque no príncipe William, mas acredito que muitas brechas serão esclarecidas na continuação que contará demasiadamente com pontos de vistas do Kyle e mesmo de outros personagens.
Gostaria que me dessem opiniões sobre quais pontos desejam que tenham melhor desenvolvimento ou informações complementares para que eu não deixe passar nada despercebido.

Continua em: “Catch Me! If You Can…”

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