15.7.17

Linden Twins ♫ ♬ Capítulo 60 por Mel Kiryu


Capítulo 60

         A noite de sábado foi um martírio para Jiang.
      Depois de ter aquela conversa com seu pai por telefone, não teve ânimo para nada.
      Desistiu de ir até a Choperia, de assistir a Jam Session, tentar reencontrar Luciel.
      Fechou a loja e foi direto para a casa.

      Estava triste, sob o efeito mordaz da rejeição na voz grave de seu pai.
      Bebeu o que havia de cerveja em sua geladeira e depois chorou sozinho afundando o rosto molhado pelas lágrimas mornas entre os braços largados sobre a mesa.
      Queria dormir, o que habitualmente fazia para ajudar a esquecer, mas não conseguia.
      Os fantasmas do apartamento de Huang o tinham seguido até Kuan e continuavam a assombrar Jiang.
     Sua mente não parava, sem botão de desligar.
     Sua cama rangia na escuridão do quarto e a conversa que tinha tido com seu pai por telefone não parava de tocar feito uma gravação em sua cabeça.
     Seu estômago aflito algo nauseado.
     A certa altura, com seus olhos acostumados a escuridão, encarou o teto pensando compulsivamente em Luciel.
     Sentia tanta, mas tanta falta dele!
     Ele era o único para quem podia ligar, contar como se sentia. Ouviria a voz dele o tom amigável-irônico comum e isso bastaria para se sentir aliviado.
     Mas, não podia.
     Aonde ele tinha se metido? Abraçava o travesseiro ao virar-se de bruços na cama e apertava os olhos, contorcia os dedos dos pés desnudos remoendo a vontade que sentia em vê-lo.
    A saudade era um vazio sinistro em seu coração.

                                                     **********
                    Não dormiu quase nada.
                E quando enfim conseguiu cochilar acordou com o som de um gato miando em seu quintal.
      Ao menos parecia ser em seu quintal, o som estava tão nítido que parecia que o gato estava em sua sala.
       Mas, quando enfim se levantou irritado, abriu a porta dos fundos da cozinha e não viu nem sombra do gato.
      Era domingo.
      Jiang tomou um banho, porque sentir a água quente caindo sobre o corpo parecia uma pretensa carícia. Ficou cerca de vinte minutos sobre a ducha e nesse ínterim, lembrou-se de seu pai mencionando o nome do pai de Luciel.
      Seu nome era Daniel Laine, era médico e trabalhava numa clínica Geriátrica.
      Fosse o banho demorado, ou a ideia que lhe sobrevinha, sentia seu ânimo renovar com as possibilidades.
      O banheiro estava imerso em vapor e tendo a toalha enrolada em sua cintura, deixou o box e desembaçou o espelho com a mão.
      Quando olhou seu rosto no espelho manchado pelo vapor, estava decidido a ligar para o pai do Luciel.
     Sabia que tinha o número do pai dele nos contatos de uma lista que estava no computador em seu quarto, colocou no fogo água para coar um café e tirou o número da casa e da clínica escrevendo às pressas na palma macia da mão que ainda cheirava a sabonete de sândalo, usou uma esferográfica azul.
     O relógio no canto da tela do computador marcava nove e vinte da manhã.
     Jiang levou o telefone sem fio para a cozinha, a água estava quase fervendo.
     Tentou ligar primeiro para a residência dos Laine.
      E uma empregada atendeu, pediu que Jiang aguardasse e foi o que ele fez sob uma expectativa absurda.
     Começou a derramar a água quente de uma chaleira no coador, o aroma do café preenchia o ar quando enfim ouviu a voz de Daniel.
__Alô... Quem é?
    Havia dito para a empregada seu nome, bom... Ela não devia ter dito ao senhor Daniel, nessa altura Jiang estava uma pilha por dentro e tornou a deixar a chaleira sobre a boca acesa do fogão.
__Bom dia, senhor Daniel... É o filho do Guzheng... Jiang.
__Jiang?__ A voz dele refletiu estranheza e desagrado, alguma desconfiança polida.__ Em que posso ajudar?
__Eu gostaria de saber sobre Luciel... Parece que ele se mudou recentemente, mas ele não me deu seu novo endereço.
__Com isso... Só posso deduzir que vocês dois brigaram.
        A voz de Daniel parecia expressar... Alívio?
    Jiang respirou fundo e se apossou mais uma vez da chaleira, derramando cuidadoso um fio da água fervente sobre o pó de café no coador de pano.
__Por que o senhor acha isso?...
__Hum! Vocês dois!... Não é óbvio? É por vocês dois não se desgrudarem desde os primórdios da vida escolar que o Luciel largou a faculdade para se tornar tatuador, em nenhuma outra realidade Luciel se mudaria sem que você soubesse... E se você não sabe, é porque não devem ser mais amigos, não?
       Jiang encarou a água escoando pelo coador, engolindo de mal jeito a saliva em sua boca.
__Por favor... O senhor não pode simplesmente me dar o novo endereço dele?
__Oi? E por que eu faria isso? Sempre achei que sua amizade fosse uma influência ruim para Luciel. Aliás, seu pai me contou o que houve com Huang... Lamento mesmo por Guzheng ter dois filhos tão problemáticos.
     Jiang teve medo do que seu pai poderia ter comentado com o pai de Luciel, a seu ver, nunca tinha dado motivos para Daniel achar que fosse problemático.
__O senhor está sendo indelicado...__ Jiang suspirou, tentando se manter frio por fora, quando já sentia desespero por dentro.__ Não há nada de errado em alguém seguir seus sonhos... Foi o que Luciel e eu fizemos ao comprarmos a loja.
__Sonhos?__ Daniel replicou com desdém.__ Luciel largou uma promissora carreira de arquiteto para ser tatuador num segundo piso de uma lojinha barata. Isso não é sonho, Jiang... Devia saber que é falta de ambição!... Fique longe do meu filho, faça essa gentileza.
__Senhor Daniel...!
__Não temos nada mais a conversar, Jiang... Bom dia.
    Jiang ia replicar, mas o pai de Luciel desligou e sua primeira reação foi encarar o fone em sua mão... Estupefato.
   Não tinha noção de como o pai de Luciel se ressentia pelo seu filho ter trancado a faculdade de Arquitetura, tão pouco que ele tratasse de colocar toda culpa em sua pessoa.

      "Eu sou o problema? É isso?... Se eu sou o problema, sinto de algum modo que Luciel possa ser a solução."

            Nada que dissessem, seja lá quem fosse, poderia convencer Jiang do contrário.
   

Um comentário:

  1. Caramba! Todo mundo contra Jiang? Coitado! Queria tanto dar um abraço apertad nele agora :')
    Eu logo pensei que o pai de Luciel o ajudaria em alguma coisa, mas me enganei, enfim... Mas quero muito que ele encontre algum alivio daqui a algum tempo..

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