2.11.17

Red District This Side of the Moon 20 por C.C & Mel Kiryu

                                         

                          Prólogo por Mel Kiryu
       
         Eu já havia fugido uma vez, há três anos atrás. Então, não deveria ser difícil repetir a façanha.
   Acho que vou acabar ficando muito bom em fugir, na verdade.
       Mas, uma coisa era certa, eu não tinha a menor intenção de envolver Master em meus planos de fuga.
          Eu não podia faze-lo responsável por mim, não era justo. Ainda mais se a decisão de fugir era somente minha.
       Essencialmente, eu devia me deslocar para o mais distante possível do Red District. Não levaria quase nada, no máximo duas mudas de roupa e o dinheiro que eu tinha guardado.
         Isso, na teoria.

     Não era fácil tomar essa decisão.
    Na primeira vez que fugi, eu não tinha muito o que deixar para trás. Nem dinheiro eu tinha no fundo dos bolsos.
     Bem ou mal, eu tinha construído uma pequena vida dentro da Houkan House, mesmo que a custo da prostituição. Eu tinha aprendido muito com Shisho, havia um espaço só pra mim, minhas roupas, meu material de shodo, meus livros.
     A verdade é que se tinha a intenção de recomeçar minha vida, precisava deixar para trás tudo o que a condição de michê tinha me dado.
            Isso tudo era um bocado triste.
        Principalmente dar-me conta que eu continuava sem um lugar para ir.

                                                              *********
                                             Capítulo 20

                        Para mim era evidente.
        Se havia uma boa hora para fugir, era quando menos esperavam que eu fosse fazer algo assim.
       E cá estava a situação que eu precisava, depois de ser violentado e agredido, não iriam imaginar que eu deixasse meu futon, abandonasse o quarto em meados da madrugada cheio de dores e com meu estado de espírito destruído.
      Era mesmo dificultoso me esgueirar tendo a sensação que meu corpo tivesse passado por uma espécie de moenda e sim, eu me sentia exausto de todos os modos possíveis.
     Mesmo assim reuni as forças que eu tinha, focado no meu propósito de fuga.
     Numa sacola de tecido coloquei quatro peças de roupa e um documento meu de identificação, não pensei muito e fiz tudo sem acender a luz. Eu sabia onde estava o dinheiro que eu precisava, vesti uma jaqueta por cima da roupa que eu estava trajando e calcei um par de tênis.
    Minha lombar ainda queimava pelos golpes de cinto e fivela e enquanto dobrava-me para amarrar os tênis, mordi um lenço para não deixar escapar qualquer ruído por meus lábios, nem o menor gemido de dor.
     Tudo estava muito quieto dentro da Houkan House, um silêncio quase sepulcral.
     Quando saí para o corredor, achei melhor não sair pelo caminho mais óbvio, onde os outros michês, prostitutas e donos da Houkan costumavam circular. Desci por um lance de escadas que dava numa área de serviço, onde de dia circulavam arrumadeiras, cozinheiros... Pessoas responsáveis pela limpeza.
     Descobri que havia quem estivesse acordado e fiz todo impossível para não ser visto.
    Apenas consegui respirar mais pausadamente quando deixei os limites extensos da Houkan House.
     Na saída, quando pisei na calçada, ainda estava escuro.
    Havia a iluminação pública, quase ninguém circulando... Calculo que fosse por volta das quatro da manhã.
    Aspirei a brisa fria da primavera e segui pela calçada, em direção a saída do Red District.
    Olhei pela última vez para o Paradise Host Club e acelerei o passo do outro lado da rua, consegui um táxi fora dos limites da Red District e pedi ao taxista para me levar a alguma pequena hospedaria nas redondezas.
    Aluguei um quarto pequeno e dos mais simples por algumas horas, porque tornara-se impossível continuar de pé.
   Não dava para continuar fugindo, enquanto eu caía aos pedaços.
   Desabei na cama de bruços, sem pensamentos, sem sentimentos e por algumas horas a fadiga absoluta me venceu.
                                                    ************               
                                     Não havia ainda como me sentir livre.
                Eu ainda estava perigosamente perto do Red District e quando acordei por volta do meio dia, eu sabia que na Houkan House já deviam ter dado minha falta.
      Comi algo no restaurante da hospedaria e resolvi comprar duas ou três peças de roupa diferentes num brechó que ficava naquela mesma rua. Eram roupas usadas, mas de boa qualidade e vesti-me diferente do habitual, escondi meu cabelo longo colocando-o para dentro do blazer e usando uma boina.
     Eu não podia continuar simplesmente sozinho, o dinheiro que eu tinha não ia durar muito.
     Foi aí que me ocorreu procurar Hagane.
     Certa noite, ele comentara comigo que durante o dia costumava ficar nas dependências de um bar estilo Izakaya que pertencia a máfia, chamado Amazake. Consegui uma informação ou outra na rua  do lugar onde ficava e tomei um ônibus.
    A fachada do Amazake tinha uma decoração bem oriental por fora, mas bem ocidental por dentro. No momento que entrei, parte das cadeiras estavam postas com as pernas para cima sobre os tampos da mesa, estavam limpando uma parte do bar enquanto uma pequena clientela era servida do outro lado do estabelecimento.
    Desde que acordei, ainda estava com dores e com a sensação de fuga controlando meus instintos. Tentei ser o mais discreto possível e fui falar com o homem atendendo num balcão, que parecia ter um pouco mais de trinta anos e usava um lenço verde na cabeça.
__Boa tarde... Será que eu poderia falar com Akane Hagane?
    O homem olhou de modo certeiro para mim, colocou um copo que antes estava lavando sobre o balcão de madeira escura, em sua outra mão segurava uma espécie de esfregão e numa olhada rápida vi que seu dedo mínimo era inexistente, havia sido decepado.
__Quem quer falar com o Hagane?
__Eu venho em nome de um conhecido dele do Red District.
    O homem me analisou com o olhar, eu não tinha dúvidas de que ele também fosse integrante da máfia, já tinha lido que a amputação de parte do dedo mínimo era uma punição aplicada por desobediência ao clã.
            Então, esse devia ser um daqueles desobedientes até dizer chega.
__Um nome... Dê-me um nome.__ Ele retrucou, irredutível.
__Está bem...__ Fiz um esforço para reprimir um suspiro.__ Vim em nome de Lawrence.
    Dizer meu nome de michê fez o olhar e a expressão do homem desanuviar-se das desconfianças, tornando-se perigosamente sagaz.
__Entendo... Está me dizendo que veio ter com Hagane... Em nome de Lawrence?
    Não consegui fazer outra coisa, que não fosse engolir à seco. Aquele tom comedido de diversão sórdida me fez recordar dos homens que tinham sodomizado meu corpo na noite anterior.
__É uma pena, não é?...__ Ele continuou.__ Hagane não está aqui agora. Só deve passar por aqui mais tarde.
     De certo que eu não consegui ocultar minha decepção, não dava para esperar por ele naquele lugar. Eu estava me sentindo como um pequeno coelho num ninho de cobras famintas.
__Não quer deixar um cartão? Um número que ele possa usar para te ligar, "contato do Lawrence"?
__ Não, não pode ser assim.
    Senti um asco terrível quando o homem tentou tocar minha mão apoiada no balcão e fiquei ainda mais assustado quando ele trocou olhares com outro homem encostado perto de uma mesa de sinuca, trajando uma chamativa camisa vermelha.
     Um estava sinalizando algo para o outro, se eu ficasse ali parado terminaria enrascado.
     Eu agradeci de forma praticamente inaudível e saí dali o mais depressa possível. Nem parei de andar, passou-me na ideia que um deles poderia me seguir. Olhei por um momento para trás, sem ter certeza de nada e avistei mais a a frente uma espécie de feira livre, havia uma grande placa onde lia-se Yugure Ichiba.
     Achei que seria um bom lugar para sair de vista de qualquer olhar suspeito, eu só precisava ser mais um no meio da pequena multidão.
              Assim, me afastei de tudo um pouco mais, totalmente sem rumo.
       
                          Seria mentira se eu dissesse que não estava pensando no Master.
                       Em verdade, quando eu espiava meus pensamentos pelas janelas da mente, via o nome dele como um anúncio magnífico piscando em neon.
                O fato é que eu gostava demais dele para envolvê-lo em meus problemas e fugir nunca foi algo planejado por nós dois, quando eu nem sabia se existia "nós dois".
        Como eu não tinha a quem recorrer, achei que era melhor comprar passagens de trem. Se eu fosse capaz de consertar minha vida, quem sabe eu conseguiria rever Master... Mas, nada do que especulava a mim mesmo tinha coesão.
              As hipóteses vinham e iam feito nuvens passageiras e eu não estava me sentindo muito bem... As feridas na minha lombar latejavam, meu corpo não estava menos dolorido do que algumas horas atrás.
     Considerei ir até a emergência hospitalar, mas isso significaria ter que usar meu nome verdadeiro, esse seria um modo fácil de levar a Houkan House até mim.
     Sei que andei por um tempo, cogitei passar a noite em mais um quarto alugado e no dia seguinte ir embora da cidade.
      E fui parar num parque, uma área de bastante verde.
     Parei para descansar em um dos bancos a sentir que estava cada vez pior, a única certeza que eu tinha é que a dor intensa devia estar sendo causada por alguma infecção.
        Mal percebi a noite cair...

             Ocupei o banco do parque com o meu senso de realidade distorcido.
              Julguei estar febril, mas eu não sabia ao certo. Sentia-me algo quente e o vento parecia-me demasiado frio, meus pés se arrastaram em meio a algumas folhas secas no chão e percebi um tanto confuso o arbusto a se mexer.
        Não... Algo se movia dentro do arbusto.
     Subitamente as ramas se abriram, foi como se um cara fosse cuspido para fora dele.
    Era um sujeito desleixado, cheguei a pensar que fosse um mendigo usando calças curtas nos tornozelos, mas daí percebi vagamente uma câmera fotográfica pendurada em seu pescoço.
__Está morto?
    Ouvi a pergunta... Estava se dirigindo a mim?
   Segurei-me algo trêmulo ao banco buscando seu olhar.
__Porra, afugentaram-me o pássaro...__ O rapaz da câmera resmungou.__ Foi você?...
__Não... Não vi pássaro nenhum.
    Não sei se foi o tom débil da minha voz que fez o rapaz se inclinar e olhar bem para mim, percebi sua expressão preocupada e sua voz soou um pouco aborrecida:
__E eu a pensar que era só um bêbado qualquer... Porra, não é que você está mesmo mal.   
__Eu não sei o que fazer... Não posso ir ao hospital e nem tenho para onde ir...
    Minha resposta saiu por impulso, talvez porque apesar de nem me conhecer, mostrava-se preocupado comigo.
__A sério? Fugiste de casa?__ Sua voz soou como se estivesse entrando em pânico, assim como eu me sentia por dentro.__ E agora, o que é que fazemos?
    O que eu estava fazendo, isso sim! Fiquei mal comigo mesmo por estar preocupando um estranho, por estar envolvendo alguém inocente em meus problemas... Levantei-me do banco disposto a deixar o parque e procurar um lugar onde pudesse passar a noite.
    Quase perdi o equilíbrio e aquele rapaz me segurou.
__ESPERA! Já sei! Vou levar-te para minha casa e depois penso numa ideia melhor.
__Mas... É perigoso levar um estranho para sua casa, nem sabe meu nome...
__Podemos nos apresentar depois!
    Ele sorriu, a câmera pendurada em seu pescoço moveu-se brusca com a decisão que havia em seus gestos e eu estava sinceramente tão cansado e perdido...
__Tudo bem se pararmos numa farmácia no meio do caminho?... Acho que estou febril...
__Compra o que quiser e vamos.
     Não sei bem se ele estava animado com a ideia e sem dúvida que faltava-lhe juízo e era uma pessoa boa, fiquei aliviado por ter me abraçado pelo ombro e deixei-me conduzir. No meio do caminho, ele disse que seu nome era Natori.

     

4 comentários:

  1. Esses dois capitulos foram pura empolgação *-*
    Quero saber mais sobre esse Natori...
    E espero que a fuga do Lawrence corra bem ^^"

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    Respostas
    1. Ah que bom que você achou que foi empolgação!
      Pode deixar que vai descobrir mais sobre Natori. ^^"
      E a figa de Lawrence tem partes ruins e boas, né? No geral... Eu diria que mesmo que não pareça, tem tudo para acabar bem.

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    2. Eu achei sim...
      Bem a verdade é que fica sempre o medo de ele ser apanhado a qualquer momento..

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  2. Pera, Hagane é aquele carinha da máfia?? Eu gosto dele (sei que posso me arrepender depois, mas gosto dele kkkkkkkk) *-*
    Natori me parece um personagem interessante, estou curiosa pra saber mais sobre ele... E eu espero que essa fuga do Law acabe bem :/ Coitadinhoo.. .(coloquei essa foto de perfil pensando nele ♥)

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