11.2.18

O Segundo Anjo - Crônicas de Antuerpéria Parte 4 Chapter 9 por Mel Kiryu


Parte 4 Chapter 9 A mais bela criação do demônio

        Desde que tentara encontrar a Cidade dos Magos, Elein usava como abrigo ao cair da noite uma gruta de entrada um tanto estreita, mas que era profunda em seu interior.
   Nas proximidades a fenda calcária encontrava água e conseguia peixes de água doce para se alimentar. Quase não havia árvores frutíferas naquela região.
   Antes do anoitecer, os dois anjos pararam para comer e descansar.
   Jang improvisou uma fogueira e se surpreendeu por Elein não demorar para aparecer com os peixes já limpos.
    Os dois comeram a observar o por do sol nas pradarias distantes, antes tocadas pela chuva que estiara a algumas horas.
    Nuvens escuras ainda vagavam no céu.

    Pouco falavam.
    No entanto, Jang sabia que Elein estava curioso.
    Não conseguia entender como um podia entrar tão facilmente na mente do outro, tal como conversar numa troca de olhares.
    Seria um de seus poderes de mago? Não gostava da ideia de entrar na mente de outrem.
   Era um modo deveras estranho de estar conectado a outro ser.
    Se pudesse escolher, mais do que nunca, não gostaria de estar conectado a ninguém.
    O fato é que não tinha escolha.

     Dava-se conta do próprio cansaço por voar por tantas horas seguidas, enquanto antes tentava se manter lúcido ao controlar com imensa dificuldade o poder que fulgia de seu corpo. Num momento em que desviou o olhar do sol que se punha, olhou vagamente para Elein que mexia na pequena fogueira com um graveto úmido.
    Elein que antes encarava as chamas e tinha o semblante, os olhos prateados iluminados pelo fogo, também mirou-se em Jang.
__Importa-se seu fizer uma pergunta?__ Foi Elein quem indagou.
__Depende sobre o que deseja perguntar.
__Quem lhe concedeu essas asas de anjo? Sei que você é somente parte anjo.
__Escute, Arcanjo... Eu não sou coisa alguma e certas coisas, é melhor nem saber.
__Você tem medo do meu julgamento?
__Depois de ter sido julgado a vida toda na minha aldeia... Garanto que me tornei imune a julgamentos.__ Jang também voltou seu olhar indiferente para as chamas.__ É mais provável que eu não saiba lidar com minhas próprias verdades.
     "E que eu não consiga me perdoar, nem aceitar tudo o que eu sou."__ Jang pensou e reprimiu um suspiro, torcendo para Elein não estar atento ao que vagava em sua mente.
    E por conta de sua própria inquietude, Jang se levantou a olhar pela última vez naquele dia o horizonte.
__Não sei você... Mas, eu preciso descansar.
    Nem esperou Elein responder ao seu comentário e Jang passou pela entrada estreita da gruta.
   Sabendo que o olhar de mercúrio do anjo acompanhava sua silhueta desassossegada, não mais secretamente atormentada e imersa em sua própria escuridão.

                                                           *********
            Não costumava sonhar.
         Mas, nas raras ocasiões que sonhava, Jang sempre estava na Aldeia dos Contrários.
       Era um cenário familiar, um dos lugares que mais gostava de estar, mas era proibido.
       Contudo, nos sonhos, ninguém o proibia ou julgava, ninguém o detestava e o culpava.
      Este era um desses sonhos.
    Via a si mesmo trajando roupas típicas da aldeia, as cores eram quentes como a sépia.
    O cenário comum o remetia a um abraço aconchegante e via as crianças contrárias, com seus cabelos acobreados e avermelhados, peles claras feito leite brincando num pátio. Ouvia as suas risadas infantis como a mais bela das melodias tendo um discreto sorriso emoldurado nos lábios.

      De súbito, dentro de seu sonho bucólico, Jang viu Shou passar pela lateral do pátio.
    Nenhum dos dois tinham suas asas a mostra, o cabelo azulado de Shou parecia flutuar com a brisa, sua existência inteira parecia um sonho dentro de seu sonho.
   E Shou parecia alheio ao cenário, como se não pudesse ouvir as risadas dos infantes, nem pudesse perceber o calor da sépia.
   Não podendo conter o próprio ímpeto, Jang atravessou o pátio e foi ao encontro de Shou.
   Todavia, quando tocou-lhe afável o rosto de doçura angelical, Shou não poderia lançar-lhe um olhar mais duro, repudiando seu toque com raiva ardente em seus gestos.
__Jang, nunca vou te perdoar.
    Era de uma nitidez dolorosa, uma frialdade cortante.
__Por que, Shou?
    Em seu sonho, até o ar tornava-se diminuto. Era difícil para Jang respirar.
__Ora, porque!... Fui abandonado quando eu mais precisava de você! Agora pertenço a Saejin.
    Sem poder fazer nada, com todas as possíveis palavras se atropelando em sua garganta, Jang apenas observa Shou se distanciar e no final de alguma rua estreita Saejin envolve seu anjo pelos ombros, oferecendo seu olhar mais triunfante.
     O sorriso mais escarnecedor para o caçador de lobos Jang Hae.
   
     Jang despertou antes que Saejin e Shou pudessem sumir de seu campo de visão.
    Imerso na escuridão da gruta, apavorado com as sensações vívidas do sonho.
    Moveu-se tão aturdido que soltou um grito involuntário assim que Elein o segurou dentro da profunda penumbra.
    Um grito que não escondia o quanto estava aterrado, ou em como suas mãos se agarravam ao outro anjo que mal conseguia enxergar...
 
           A luminescência das asas de Elein preencheram a gruta e somente assim pôde fazer com que Jang olhasse em seus olhos e abandonasse o transe em que se encontrava.
     Mergulhado num pesadelo que parecia continuar mesmo acordado.
__Jang Hae! Olhe para mim... Olhe para mim, Jang.
    Por mais que tentasse se apegar a voz grave e preocupada de Elein, permanecia preso a culpa que sentia. Tentou mirar-se dentro dos olhos intensamente prateados, mas Jang ficou mortificado com o vestígio de suas próprias lágrimas.
   Fitou Elein por dois ou três segundos e escondeu o rosto franzido contra o ombro do arcanjo.
__O que foi que houve?__ Elein questionou em tom cavo, acolhendo Jang contra seu corpo.
    Não houve uma reposta imediata, mas Elein ouviu um soluço seco que Jang tentou abafar. Típico de quem evitava chorar por fora, mas há muito chorava por dentro. 
    Seus dedos longos entraram devagar nas madeixas ruivas e também preso a ausência de suas vozes, Elein pensou em Kyu.
    Seu companheiro arcanjo confinado há dias em Miríades.
    Em toda sua longa existência jamais se sentira tão incapaz, talvez por conta disso surgisse em seu ser a vontade essencial e inevitável de proteger Jang.
__Foi só um sonho...__ Jang sussurrou, sem se mover.
    "Um sonho..."__ Elein repetiu para si mesmo e imaginou como seria sonhar.
     Anjos não sonhavam, não eram criaturas normalmente dotadas de corpo físico e se quer precisavam dormir.
    Ainda que por um curto período de tempo Elein tivesse sua alma imortal presa a um corpo físico e andasse experimentando momentos de descanso, nada se passava em sua mente no instante em que dormia.
__E me diz isso como se precisasse se convencer...__ O tom de reprovação na voz do arcanjo era brando.__ Para mim seu desespero pareceu bem real.
     A parte de sua desolação, irritava a Jang que Elein o tratasse como se fosse merecedor de ser protegido. Não compreendia o resquício de afeição e complacência na voz grave do arcanjo e empurrou-o pelo ombro, porque o próprio Jang não conseguia abandonar aquele ombro forte que o consolava.
__Você não percebe? Eu sou mau.
    Somente afastando Elein ao empurra-lo com seu punho fechado é que ergueu a face, não que quisesse olha-lo nos olhos mais uma vez.
    Entretanto, o arcanjo permaneceu por perto a iluminar o interior da gruta com suas asas, o som da água pingando ecoava num ruído contínuo.
__Mau?__ Elein tornou a inquerir, sua voz também ecoava duvidosa da afirmativa que ouvira.__ Por que se diz mau?
    Tinha perdido o sono após despertar do pesadelo e se havia atiçado mais uma vez a curiosidade de Elein, não havia outra alternativa se não admitir a verdade, ou ao menos... Parte dela.
__Foi Saejin quem me deu essas asas... Não era o que você queria saber?
    E tendo o relavado, Jang não poupou a frieza no verde do olhar ao mirar-se em Elein.
               Imóvel, Elein estreitou seu olhar sem mudar a expressão de sua tez.
                 Estava diante de um anjo híbrido criado por um demônio.
                   


6 comentários:

  1. Oi, Mel, como vai??!




    AIMEU DEUS QUE SAUDADE DE JANG, MEU CAÇADOR, ANJINHO, CASTIEL, COISINHA RUIVA MAIS LINDA. DESCULPA O CAPS, TO EMOCIONADA.


    ah, eu tô sofrendo junto com Jang. Preocupada com Shou, como ele, Etzel, todo mundo :'( toda essa culpa que ele carrega é angustiante, espero que Eles não se afaste e o ajuste a lidar com isso.

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    Respostas
    1. Oi, Golden! Eu tô bem! :)

      Opa! Que bom que deu para matar um bocadinho da saudade do Jang. Postei dois capítulos mesmo pensando em você. O próximo é com o Etzel.
      Mas, a dor maior do Jang é ter abandonado o Shou nas ruínas de Ankh.

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    2. Ah, muito obrigada, Melzinha, tava com muita saudade de todos eles ^_^
      Eu imagino! Deixar alguém que ama daquele jeito foi bem difícil pra ele... Mesmo que ele temesse esse poder. Eu fico doida para os dois se reencontrarem (Shou tambem tá sofrendo muito...), Sem falar que fico curiosa pra conhecer mais desse poder de Jang. #.#

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  2. que pesadelo ruim ....
    Nao acho que o Elein va abandonar o Jang
    aliad acho que depois deste sonho foi a primeira vez que o vi tão sensivel

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  3. Verdade, Rima.
    É difícil o Jang se curvar a própria dor, mas o remorso para ele é a pior das dores.

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